quarta-feira, 24 de abril de 2019


Uma primavera chamada esquecimento
Comprei esse quadro chamado Oblívio - que significa esquecimento. São barcos sumindo num fundo acinzentado , um horizonte azul se anunciando de leve , no meio da névoa .
Esquecer pode parecer triste. A gente teima em segurar algumas memórias tentando se lambuzar mais um pouco quando a saudade vem . Ficamos atrás de migalhas buscando reviver algo que já não está mais lá .Esquecer, contudo , é também libertador. Abrir espaço para desabrochar novas historias , depende da nossa generosidade de deixar partir algumas memórias .
A tecnologia ensina isso para gente , liberar espaço de memória pois o disco rígido está pesado. Apagamos algumas , surge mais espaço . Com a nossa mente às vezes funciona parecido : certas coisas só fazem pesar. Pesar no sentido de tristeza e também de peso .
Passei anos namorando esse quadro. Queria que ele fosse meu . Foi amor à primeira vista. Hoje ao me despedir da minha sala , olhei para trás quando fui fechar a cortina .
Estava eu , a primavera e o esquecimento . Fiquei pensando , por fim , o quanto uma coisa depende da outra. Para que algo novo surja é preciso deixar certas lembranças partirem como barcos á deriva no vasto oceano da vida. Só assim se anuncia um horizonte azul . Do contrário é só neblina que embaça os olhos .
E la nave va. 


Metamorfose Ambulante

Foi outro dia mesmo que meu filho chegou em casa contando que estava estudando metamorfose na escola. O girino que vira sapo, a transformação da borboleta e por aí vai.
Até que antes de dormir quando ele me pediu uma história e minha mente lembrou-se de Gregor Samsa o pobre moço que acordou transformado numa enorme barata. Contei a história para ele achando uma tremenda ideia , a começar pelo fato de que Kafka era duro e penhorava seu casaco no inverno para poder comprar tinta para escrever . Achei que ao contar isso poderia explicar algo sobre a necessidade, a falta , o sonho e a determinação .
Comecei , empolgada , estava tudo indo bem. Até que me dei conta do trágico final que viria a seguir . Não poderia correr o risco de deixar meu menino assombrado com a solidão e o esquecimento que acompanharam o fim da vida do personagem. E daí tive uma ideiazinha de licença poética , de mãe super protetora :

- Sabe meu filho , tava lá o Gregor transformado numa barata bem feiosa , na janela triste achando que ninguém mais queria ter ele por perto. Até que passou uma moça chamada GH que olhou para ele e viu toda a razão de sua existência. Subiu na janela deu - lhe uma mordida e viveram felizes para sempre. Encontrados . E fim de papo .

Ele dormiu feliz . E eu fiquei pensando sozinha. Como seria lindo se alguns persongens pudessem se conhecer e se encaixar um no outro . Tipo se o Meursault do estrangeiro encontrasse a Amelie Poulain ou se a Ursula do Cem anos de solidão conhecesse o Holden Caulfield , se ela ajudaria ele a se questionar menos. Ou se o Nino Sarratore encontrasse uma boa analista , será que daria paz para Lila e Lenu ?
Também às vezes quando morre alguém querido , fantasio um encontro seja lá onde for. A Celeste minha professora de Yoga querida pode ter conhecido minha Tia Uda que vivia com dor nas costas. Ou se minha avó que era toda pra frentex pode encontrar a Cidinha , a cozinheira que me criou e passou a receita de pão de queijo pra ela.
Se meu pai conheceu a Sophia Loren e briga com o pai do meu amigo Tato Badra por causa dela lá no céu .
Na minha fantasia estão todos encontrados e pertencendo a algum lugar. Se foram personagens ou parentes, não importa , ninguém fica de fora. Em mim vão estar eternamente vivos, enquanto eu respirar, são meus . É esse o meu desfecho, a minha metamorfose com tudo que eu amei , encontrei, li e vivi.
Lembrei do filme o escafandro e a borboleta que o jornalista que sofre um acidente ficando tetraplégico diz :

“ Meu corpo é meu escafandro . Minhas memórias são minhas borboletas , com elas vou a qualquer lugar “.

Eu não ando só , só ando em boa companhia .

Dentro de mim ninguém vira barata .

Feliz dia do livro .