terça-feira, 11 de agosto de 2015

           
O que será que me dá?


Não houve amor, nem homem, nem alma. O que se sucedeu é que com o tempo deixei de ter esperas. E quem deixa de ter esperas é por que já deixou de viver.
(Mia Couto, A Confissão da Leoa)


Principal motor de nossa vida, essencial para nosso desenvolvimento , para nossa ligação com o outro, o desejo funda nossa existência. Ele é o que nos faz ter planos, investir, esperar. Uma vida sem esse sentimento apoia-se na desesperança, ficando sem propósito ou direção .
O desejo sai pelos poros, pela pele e nos dirige á algo ou alguém. Está ligado á movimento . É preciso que tenhamos anseios para sair do lugar. Talvez por isso os comportamentalistas chamam-no de Drive – O que considero um nome bastante adequado já que ele é quem dirige, empurra, cria um espaço para que o outro caiba em mim. Um sentimento inquieto e ardente  que possibilita a troca e o abastecimento.
Desejando declaro ao mundo minha incompletude: comunico que há algo que me faz falta  e vou em busca de me alimentar.  O desejo nasce da falta e conta sobre uma necessidade, fazendo oposição á solidão.
 É o que me bole por dentro e me faz suspirar , na canção de Chico Buarque. O grito do corpo , da pele , que não tem juízo, nem nunca terá , que dá dentro da gente que não devia , porém que que carrega em si uma essência transformadora. É que ele não se basta , não se cabe, age, atropela. Assim como um coração ele pulsa e exige saciedade.  A cor vermelha é seu símbolo, cor do sangue e da vida .
Em seu texto Sobre o Narcisismo, Freud declara : É  preciso amar para não adoecer. Humildemente, acrescento : É preciso desejar para não adoecer. Desejar é sinal de saúde psíquica. Não desejar está ligado á indiferença , á acomodação , á paralização.
O desejo é responsável por encontros e desencontros surpreendentes na estrada da vida ; ao criar vínculos , dá liga e desliga . Quantas histórias de amor acabam por sua falta, quantas começam pela sua força imperativa .
Na Psicanálise, recebe o nome de  libido e está ligado ao instinto de vida, responsável pela criação, reprodução, vitalidade. E popularmente,  recebe outro nome: tesão, palavra vinculada ao ato sexual, nossa principal ferramenta na luta contra a morte. É que ao desejar, nos reproduzimos e  deixamos descendentes; Isto é,  a única forma que o homem encontra de tornar-se imortal e preservar a espécie é  passando adiante seus genes .
O conceito de vetor da física define bem o significado de desejo : Uma força caracterizada por direção , intensidade e sentido.  
Nosso instinto de sobrevivência está vinculado ao desejo, á fome.  Sabemos que um dos sinais que indicam que a vida está em risco é quando o paciente doente para de ter vontade de se alimentar.
No entanto, sofremos pois nossos desejos não partem da nossa reflexão, nem sempre combinam com nossa parte consciente, com os caminhos escolhidos.  Costumam vir de um outro lugar menos racional , mais bicho, menos elaborado, indomável e esfomeado que busca satisfação e prazer. Sua força febril é violenta, embora a gente viva tentando controlar. A tal bruta flor do querer se prima pela desobediência . E quanto  maior nossa tentativa de controle , maior ele fica .  E é  nessa impossibilidade da sua realização   que eles vão crescendo e tentando  escapar de seus esconderijos, quando a censura dá uma folga.
O fato é que todos , em algum momento da vida  nos curvamos á sua força indomável. Não há símbolo mais oportuno para representa-lo que  o fogo , que cria a vida tem uma força que queima  .
É preciso que hajam faíscas que norteiem nosso caminho .  Embora o fogo seja difícil de dominar, nos aquece e ilumina. Talvez por isso celebremos os aniversários ascendendo velas. Possivelmente há aí um simbolismo da chama da vida. Apagando-as engolimos combustível para  mais um ano e fazemos um pedido. Oferecemos ao fogo um desejo que queremos que se torne realidade. E chama também  está ligado á  palavra chamar , que lembra uma outra , buscar. E outra vez  voltamos ao nosso tema, de onde tudo começa, sempre: Desejo.






Helena Cunha Di Ciero é psicanalista , membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e tem um profundo respeito pelo desejo.

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